Contos que Mal-Acabro - 3


Novela das 8

Altemiro está prestes a beijar Jucelina. Quando o infeliz do diretor grita: Corta! A atriz quase atira seu tamanco no velho, que está bravo com sabe-se lá o que. Altemiro não tem expressão, mais do que o normal. Todos os produtores estão felizes com a novela. Tudo saiu como planejado. O episódio iria ao ar na semana que vem, e a audiência estava crescendo tanto que mal podiam esperar pelos próximos capítulos (fãs incondicionais invadiram o estúdio no dia anterior e fizeram Marie, a atriz que interpreta Jucelina, refém e para libertá-la, queriam em troca ver os próximos episódios inéditos).

Mas aos poucos Marie ia se recuperando desses episódios (de gravação e de sequestro). Ela saiu naquele fim de tarde com seu colega de profissão, Alfred, que tinha nome e aparência de mordomo, mas na novela interpretava um mendigo cleptomaníaco. Os dois iriam pegar o trem para Scalibur Ville. A estação em Liberty City estava completamente vazia. Apenas zumbis e lobisomens estavam esperando o trem. Mas algo estava mais estranho do que isso: O mapa indicava uma outra cidade antes do destino deles, mas não era possível ler o nome.

Mas isso não existia antes daquele momento.

Marie pediu para o Alfred perguntar à um dos lobisomens. Ele perguntou mas eles não sabiam, logo foi até os zumbis, mas também nada. Irritado, Alfred disse que um dos lobisomens havia chamado um zumbi de Roberto Marinho. Todos os zumbis se ofenderam brutalmente, e partiram para a ignorância. Houve muita confusão até a polícia chegar. Todos foram levados para a delegacia e só saíram de lá com pagamento de propina. Marie e Alfred já estavam no trem nessas alturas...

Marie estava aflita. Nunca tinha visto aquela cidade entre as duas que conhecia. Seria um erro gráfico? Ou apenas um engano na leitura?

- Estou com medo, Alfred! - confessou a mocinha.

- Não fique, querida. Logo passaremos por isso e estaremos em casa para assistir a próxima temporada de Lost.

- Assim espero...

Após uma seção escura no trem, houve um clarão na mata iluminado pela lua, e mais adiante por alguns refletores. Ali estava escrito o nome da cidade: Rocktown.

Algumas casinhas foram aparecendo e conforme a noite avançava, prédios brotavam da terra e tocavam o céu. Alfred não demonstrava nem um pouco de susto ou apreensão. Ou já conhecia tais mistérios ou quem sabe era um E.T. muito familiarizado. Já Marie estava com tanto medo que mal sabia o que estava fazendo naquele trem. Sua casa era tão modesta que não parecia estar na próxima estação, pois era difícil imaginar isso frente a quantidade de prédios imensos ali presentes. Está certo que havia uma vaca pastando no asfalto, mas fora isso, tudo era urbano demais.

O trem estacionou na estação. Marie esperou. Mas depois de muito tempo parado, percebeu que a locomotiva não iria arredar pé dali. Então tomou a liberdade de dar uma voadora na porta e quebrar tudo para sair dali imediatamente. Alfred não se moveu. A moça passou pela parte de vidro. Um instante depois, a porta abriu, com os dizeres na caixa de som:

- Bem vindo à estação Rocktown, desembarque permitido.
Aí sim, Alfred saiu.

As portas se fecharam rapidamente e o trem saiu a milhão. Bah, tinha que ver... Só que na verdade, não era bem a estação desejada por Marie, tão pouco por Alfred. Sim, o pesadelo começa a tomar forma...

Ela parecia saber que isso iria acontecer, então estava agora mais curiosa por Rocktown, a cidade noturna.

Saindo da estação ela se depara com ninguém. Ou seja, nem se depara. Toma a liberdade de sair e procurar alguém. Mas é difícil, pois alguns postes estão com uma iluminação péssima, e guaipecas não saem do pé de Marie. Ela só percebeu que tinha pisado na bosta quando tentou espantar os cuscos... Alfred riu de canto. Riu riu chiu.

Os dois entraram em um bar com show ao vivo. Mas não havia alguma alma penada tão pouco desalmada. Contudo, para o susto de Alfred (Marie já estava gostando da situação), um velho surge de trás do balcão. Ele se parece com aquele velho da fase dos chineizinhos do Hitman. Bem... Os dois foram até o velho porta-teia-de-aranha e fizeram a pergunta que não queria calar:

- Tem Coca?

- Não. Só Pepsi...

- Me vê dois drinques de Pepsi.

Eles se sentaram em uma mesa. O bar era bem elegante até... Lembra aqueles restaurantes que chegam a acumular pessoas fora esperando sua vez. Mas nada disso estava acontecendo realmente. E havia um show, pelo menos era o que dizia o cartaz lá fora.

- Não acha uma boa idéia perguntar aquele velho onde estamos?

- Sim, mas ele me parece alguém que eu conheço... Me dê um instante.

Alfred começa a encarar o velho teioso. E o teioso não vira o rosto. Os dois se olham por tanto tempo que parecem ter se apaixonado ao contrário. O velho caminha para o lado e, como não olha para frente, tropeça e cai, quebrando alguns copos. Ele levanta e se recompõe rapidamente, voltando a encarar Alfred.

- Ei, moço, onde estão as Pepsis?

- Já estará quentinho e crocante na sua mesa, senhorita! - disse o velho louco.

As luzes se apagam no bar. E refletores apontam para o palco. Sim, haveria um show, de fato. Marie só queria saber se seria 'Os fantasmas da ópera'.

Na porta, três homens com sobretudo verde marca-texto entram sem fazer muito barulho. Mas não conseguem deixar de chamarem a atenção, devido a cor do sobretudo. Alfred não tira o olho do velho teioso. E Marie não sabe mais para onde olhar.

Lá no palco, uma cantora loira e velha, e um tanto mais para lá do que pra cá, canta o hino nacional numa versão nada convencional.

Marie não sabe o que fazer, mesmo ainda achando tudo muito divertido. Não era para menos, a menina tinha lá seus 32 anos e estava curtindo a mocidade. E Alfred era um garotinho de 55 anos. Estava na flor da puberdade avançada.

O velho finalmente trouxe o refrigerante (refri pros gaudérios). Isso depois de ter trazido dois copos de vinagre e depois duas xícaras de bicabornato de sódio. Mas em nenhum instante desviou o olhar de Alfred (imagine quanto refri ele derramou fora do copo...).

Após os dois beberem, e o hino ser da forma mais horrível cantado, o sono chegou para os dois. Alfred finalmente desviou o olhar do teioso caindo na mesa dormindo. Marie percebeu a farsa do refri, e conseguiu ver os homens de verde-claro chegarem até ela. Depois nada mais aconteceu.

Marie é acordada por Alfred. Ela olhando o colega nessas condições se sentiu dormindo na casa do Batman. Mas na verdade estava apenas no meio da rua. Sentiu a picada de levara no braço esquerdo, e logo o amiguinho Alfred mostrou que também fora picado. Ela se levantou. Seu vestido estava sujo. E as calças de Alfred estavam molhadas.

- Foram os cuscos, eu juro! - disse ele, se retratando.

Eles andaram um tempo, mas estavam exaustos por terem dormido direto no chão. Logo mais a frente, eles encontram uma moça; ela também parace perdida. Se identifica como Lucy e mostra o cartão de não-monstro.

- Estou nessa cidade faz alguns dias. Nunca amanhece e não acho de jeito nenhum a saída... Estou ficando nervosa...

- Vamos sair daqui, menina, não se preocupe. - amenizou Alfred.

Os três se uniram a foram em busca de ajuda. Mas a cidade estava repleta de pequenas ilusões. A própria cidade era uma delas. A noite também. Mas os cuscos não...

***

*Cusco, Guaipeca - Cachorro vira-lata, um daqueles que anda atrás de cavalos. Como diz a milonga abaixo de mau tempo, "Amada! Me deu saudade... Me fala que a égua ta prenha, que o porco ta gordo, que o baião ta solto, e a cuscada lá em casa comeu".



PMSS

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SOBRE O AUTOR

Paulo Matheus Souza de Souza nasceu em 1989, na cidade Porto Alegre. É engenheiro civil e trabalha com pesquisa na área. Começou a escrever cedo, junto com os irmãos, primos e amigos. Juntos, eles fundaram uma “editora”, chamada Scott, onde o que mais faziam basicamente histórias em quadrinhos. Com o tempo, o autor passou a escrever histórias mais longas, algumas até hoje inacabadas. Em 2008 começou a escrever contos e crônicas neste blog pessoal.

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