Contos que Mal-Acabro - 5

Foto tirada por Matheus; não tem relação nenhuma com esta história...


O Massacre do Bonde Elétrico

Don Ruan acende um charuto de quase meio metro. Ele se acomoda em sua mesa de quase três metros de largura, e agradece aos três homens marca-texto.

- Excelente trabalho, servos malditos! - disse o chefe maldito.

Os três eram malditos pela própria natureza, mas não estavam nem um pouco risonhos e límpidos... Bem, entretanto estavam satisfeitos com a grana que receberam. E os sapatos.

- Precisará de nós agora? - disse o que tinha chapéu de cowboy americano/paulista.

- Acho que não, mas fiquem na cidade. Posso precisar mais tarde.

Os três saíram com semblante fechado; Ruan admitia que era do feitio deles, mas estava sempre com a atenção redobrada para isso. Da parede, onde havia uma prateleira de livros, sai uma pessoa. Na verdade, foi daquelas paredes que giram, sabe? Acho que sim... Quem saiu foi o velho dono do bar que tinha uma cantora loira e velha e que cantava... sim! Ela mesma. O velho, por incrível que pareça, empunhava um pano de prato e um copo, que parecia estar seco há muito tempo. Ele também mascava algo que não tinha nada a ver com chiclete, dado o bafo eminente.

- Então, Valentine, o que acha de meu plano?

- Sei que tudo vai acabar mal, pois somos os vilões desta história!

- Pouco me importa, velho maldito! Aproveite o momento! Estamos por cima da carne seca! Contemple a cidade fantasma!

Ele se referia a Rocktown. Mas quando abriu a cortina, percebeu que a sujeira do vidro era tanta que mal podiam ver se estava de dia ou de noite.

- Velho, lembre-me de trazer para cá, também, uma faxineira.

Valentine, que não era bobo nem nada, atirou uma cadeira pela janela. Isso fez com que pudessem, realmente ver... Mas quando se aproximaram da janela, viram lá embaixo um dos homens com sobretudo verde marca-texto havia sido atingido pela cadeira e pelos estilhaços. Era o mesmo que havia levado uma injeção por engano dias atrás. Este usava um chapéu semelhante ao do Chaves.

Lá de cima, Ruan apontava para o velho, querendo dizer que a culpa não fora dele.

- Eles já não iam muito com a minha cara... - disse o velho, resmungando.

- O que você disse que tinha para me dizer?

- Acho que conheço um de nossos convidados.

- Quem?

- O mais velho.

- Quem é o mais velho?

- Alfred! O de cabelos brancos! Como assim que é o mais velho? Está ficando louco?

- Deixa pra lá, rapaizinho. Conhece ele de onde?

- Não lembro. Mas o conheço.

- Ah, então não me torra a paciência que ainda me resta.

Valentine não queria torrar nada a não ser as torradas de seu bar. E foi para lá que voltou. Enquanto isso, na tela de seu notebook 4gb, 1000gb de HD, Don Ruan observava a movimentação de seus convidados.



Lucy ouve um barulho de janela quebrando. E percebeu que, além de se tratar de uma cadeira, esta ainda atingiu uma pessoa. Mas não estava nem perto do local. Marie fez um sinal para Alfred, girando o dedo no lado da cabeça. Mas se não fosse por esse sinal característico da loucura, não teria encontrado o que procuravam: pessoas. Na verdade, qualquer vida inteligente que fosse (não as assombrações de dos dias que estavam ali).
Marie havia avistado Bob. Apesar de que ele, Britney e John estivessem correndo de um bonde, Bob havia parado para amarrar os sapatos. Ou seja, se não acontecesse isso não aconteceria aquilo; Marie avisou Lucy e Alfred e logos correram atrás dos outros três.

Logo estavam os seis, da esquerda para a direita: Bob, Britney, John, Lucy, Marie e Alfred correndo do bonde... Mas afinal que bonde era esse?

Um pouco antes do encontro, John havia encontrado uma padaria vazia. Na verdade, ainda estavam todos os doces. Estavam. John fez a festa, Britney não quis abusar e Bob estava de dieta (fome, mas não queria perder os modos) e apenas colocou alguns doces no bolso para as crianças do orfanato. Mas quando menos esperavam, ouviram vozes fora da confeitaria. Diziam: "O bonde vai sair!". E não queria perdê-lo. Só que o bonde é que queria pegá-los. E não havia nem ao menos um guiador, tão pouco o bonde andava pelos trilhos. Estava sendo guiado por si só...

Durante a correria, Lucy teve a idéia de subir em um prédio. E todos elogiaram a idéia, é claro, até o momento que o bonde começou a subir o prédio também. Depois de algumas escadas pra lá e elevadores pra cá, driblaram o bonde e chegaram ao primeiro pavimento antes do bonde.

- Acho que despistamos aquilo! - disse Bob, que não tirava os olhos dos sapatos de Alfred: "Será o Cleveland 2010?".

- O que vamos fazer? Estou ficando louca nessa cidade! - disse Marie, agora mudando o gosto e detestando tudo, já que novelas não tinham tantas assombrações quanto ali.

- Temos que encontrar mais alguém, talvez alguém saiba de mais alguma coisa.

Lucy lembrou da casa da amiga, talvez o que tinha lembrado na primeira noite não tenha sido apenas a sua alucinação.

- Sei aonde ir - disse ela -, vamos até uma casa para o Sul!

Ninguém discordou. John, que estava anotando tudo para depois escrever num livro, notou que apesar de bizarro, a história seria mais como se um psiquiatra anotasse coisas que só deveria ouvir; Britney estava preocupada com John, não só pelos ferimentos que começava a sangrar novamente (um pouco pela forma com que os curativos foram feitos...), mas por que ele parecia como se alguma enfermeira desvairada o tivesse entortado os pés.

Todos ouviram quando o elevador chegou no 1º andar. Olhares apreensivos. "Quem será?". Sim, era o bonde novamente.

- Ei, Alfred, consegue correr? - perguntou Bob.

- Veremos! - respondeu o garoto, que sabia que todos lhe chamavam brincando de Alfred, apesar de por incrível coincidência, chamar-se Alfred, realmente.

Eles saíram pela porta. E ficaram surpresos quando um homem dirigindo uma Kombi apareceu, pedindo para que entrassem. Quando entraram, Lucy o reconheceu. Era seu ex-namorado, um judeu que se fingia de neonazista. Mas não recusou a oportunidade, em vista de que um bonde maluco os perseguia. Mas logo ele perguntou a ela o que não queria calar, para ele é claro:

- Diga, Lucy, o que aquele mendigo disse para você?

- Ele disse algo muito estranho... Mas acho que estava delirando.

- Vocês se conhecem? - perguntou John, que mal conhecia Lucy também...

- Sim, fomos namorados... Mas é mais importante é que você diga, Lucy, o que o mendigo lhe contou?

- Ele disse que... Esta cidade não existe! Que é pura ilusão e que tudo foi planejado para que nós estivéssemos aqui.

- Como assim? - disse Bob - Como pode um mendigo dizer que "nós" estarímos aqui sem saber realmente quem seriam esses "nós"?

- Bom, não custa testar - disse o motorista judeu-neonazista.

Ele freou a Kombi que estava a todo vapor correndo do bonde. Todos perguntaram se ele estava louco, pois o bonde iria atropelar e matar todos desse jeito. Quão foi a surpresa quando o bonde tocou na Kombi e desapareceu. Sim, era uma ilusão muito real. Outra, aliás.

- Lucy, acho que minha irmã me sabotou. Primeiro me dopu com alguns remédios e depois escondeu minhas bolas de bocha que eu sempre uso... E acho que está envolvida em tudo isso!

- Nora não seria capaz... Ou seria?

- Seria sim! - respondeu Marie - Estou acostumada com isso nas novelas, meu bem...

Lucy ficou perdida. Não sabia se orientar. Olhou por um instante a cidade onde crescera e agora, sabendo que tudo era uma ilusão, parecia que seu futuro também poderia ser.

- Tive uma idéia! - disse Bob, deixando de lado os sapatos de Alfred - Vamos até o prédio onde levei uma pancada na cabeça! Lucy, se você cresceu aqui deve saber onde fica.

E foi o que fizeram. John, Britney, Bob, Marie, Alfred, Lucy e o judeu-neonazista, que se chamava Billy, estavam indo para aquele suposto prédio. E logo saberiam mais sobre essa história mal contada. Quer dizer, mal acabrada.

Enquanto isso, naquele mesmo prédio, Nora entrava na sala de Don Ruan, perguntando:

- Onde está minha parte nisso tudo?

- A sua parte? Está bem aqui, com meus amigos.

Sim, eram os homens com sobretudo verde marca-texto. E também tinham uma injeção tranquilizante reservada para ela. Nora estava sedada, mas não fora do prédio, como os outros.

- Eu disse que ainda precisava de vocês. Mas onde está o do chapéu do Chaves?

- Foi dar uns tabefes no seu amigo velho.

- Hummm, legal.

Don Ruan ligou outra vez o seu Note, estava a fim de ver o que passava na TV. E sim, eles estavam chegando cada vez mais perto...


***

PMSS

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SOBRE O AUTOR

Paulo Matheus Souza de Souza nasceu em 1989, na cidade Porto Alegre. É engenheiro civil e trabalha com pesquisa na área. Começou a escrever cedo, junto com os irmãos, primos e amigos. Juntos, eles fundaram uma “editora”, chamada Scott, onde o que mais faziam basicamente histórias em quadrinhos. Com o tempo, o autor passou a escrever histórias mais longas, algumas até hoje inacabadas. Em 2008 começou a escrever contos e crônicas neste blog pessoal.

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