Para quem são e para que servem as novelas

Quem, no Brasil, nunca assistiu uma novela? Nem que fosse uma cena ou um episódio? As novelas, originárias dos folhetins e, mais tarde, incorporadas ao rádio e por fim à televisão, fazem parte da cultura atual do nosso país. Algumas geram tanta popularidade que se tornam temas corriqueiros na boca do povo, muito mais inclusive que educação e saúde.

A curiosidade é um dos artifícios mais explorados pelos escritores de novela. O povo quer sempre saber o desfecho de algo que começou, e ele espera que saia tudo bem. No Brasil, as pessoas tem uma carga de trabalho exaustiva em sua maioria. Não maior que em outros países, porém a dificuldade de crescer financeiramente não se restringe ao número escasso de vagas em cursos técnicos e superiores, e sim a de, por exemplo, criar uma empresa, devido a alta taxa de impostos. Criatividade não falta, porém os resultados são aquém do esperado; um micro-empresário muitas vezes tem lucratividade igual a de um trabalhador comum. Essa dificuldade financeira impede, por exemplo, da maioria ter TV a cabo ou até mesmo acesso a internet. Não há escolha.

O sistema pode ser uma das causas da alta audiência das novelas. Mas qual seria o problema nisso? Seria mentira dizer que as novelas não retratam uma certa realidade - mesmo que muitas vezes distorcida, ou até mesmo que influencia uma geração. 

Novelas são muito famosas em toda a América Latina. O Brasil, assim como o México, são líderes em produção e exportação de novelas. Ambos, porém, não conseguem desenvolver o mesmo sucesso no cinema, diferentemente, por exemplo, da Argentina. A tele-dramaturgia não depende de um bom roteiro, e sim de casos que prendam a audiência. O roteiro é sempre o mesmo, o que vai precisar mudar mesmo é o cenário e os nomes.

Alguns tentam traçar um paralelo entre as novelas sul-americanas e os seriados norte-americanos. Dizem, inclusive, que as novelas são melhores no sentido de que a expectativa é sanada no dia seguinte, e que há apenas uma temporada (não há, por exemplo, O Rei do Gado 2ª Temporada...). Porém, esses mesmos esquecem que o estilo das novelas é esse: não criar um suspense, apenas cobrir aquele horário com 'informações' que o povo quer ver. Algo que não os faça pensar, para isso já basta o dia duro que enfrentaram.

Há duas certezas quanto ao público alvo na questão audiência: tudo dependerá da cultura em que se distribui um trabalho. Num país onde os romances literários ganharam bastante notoriedade nas mãos de Machado de Assis, Aluísio Azevedo, José de Alencar, as novelas tem suas raízes muito fortes (as novelas, teoricamente, deveriam se chamar romances, se levarmos ao pé da letra). E não podemos esquecer do custo-benefício, já que audiência garante muita rentabilidade, e não se mexe em time que está ganhando, mesmo que isso envolva transmitir valores distorcidos.

Recentemente, dois fatos me fizeram vir aqui comentar sobre novelas: um deles é que, essa fórmula repetida e chata, está começando a ruir. O desenvolvimento econômico pode ser um reflexo disso. Os filmes sempre foram melhores do que as novelas, sempre com mais enredo, as vezes muito menos caro que um episódio de folhetim televisivo. E os seriados gringos, que atualmente são, em suma, um grande filme, vem cada vez mais conquistando o público tupiniquim (mesmo que, ainda com o grave erro de algumas emissoras os dublarem...), e tirando pontos importantes do horário "novelístico". Não que esse seja o principal motivo, mas já conheço muitos 'novos convertidos' aos seriados que desistiram de ver o último capítulo pacato das novelas manjadas.

Novos convertidos... Por falar nisso, e esse é o segundo fato, como conquistar fiéis através das novelas? Que credibilidade teriam as novelas? Depois de diversas polêmicas, diversos temas contraditórios, como levar em conta elas? Acredita que há pastores evangélicos interessados nelas? Em passar valores cristãos? 

Cá entre nós, eu viraria cristão assistindo Supernatural, ao invés de Estúpido Cupido ou As Filhas da Mãe. Será que o mundo já não acabou?

OBS: Há, sim, uma novela com temporadas, chamada "Malhação". Como classificar isso? Uma novela, que na verdade seria um romance, só que com temporadas? A julgar pelo seu conteúdo, é fácil: lixo!


PMSS

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SOBRE O AUTOR

Paulo Matheus Souza de Souza nasceu em 1989, na cidade Porto Alegre. É engenheiro civil e trabalha com pesquisa na área. Começou a escrever cedo, junto com os irmãos, primos e amigos. Juntos, eles fundaram uma “editora”, chamada Scott, onde o que mais faziam basicamente histórias em quadrinhos. Com o tempo, o autor passou a escrever histórias mais longas, algumas até hoje inacabadas. Em 2008 começou a escrever contos e crônicas neste blog pessoal.

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