As desventuras de amigo Menino - VI


Capítulo 2.1 – A visão do passado

"A cidade era precisamente Porto Alegre. O centro era o palco principal. Isto, em meados de 2010. Mas quem, precisamente viria a ser mostrado? Era ele, Francisco Filho, ou Chico. Chico era guri, tinha seus 20 anos. Por perto, seus pais e a namorada. Amigos e colegas. Pertences e perdidos. Desconhecidos, cem mil a sua volta se atropelam na Andradas, ou Rua da Praia. Longe apenas os sonhos. Estes não ultrapassavam a atmosfera terrestre, que era tomada pelo oxigênio, ainda que ameaçado. Sua voz, sabia ele, não calariam 7 bilhões de seres de sua mesma espécie. Também pudera, era ele Francisco Filho, estudante sem poder nenhum, sem postura para político, porém sempre procurando a verdade. E a verdade é que seu mundo em que sete bilhões de seres de sua mesma espécie vivem está se degradando. Mas ele, o simples Chico sabia muito bem que o ser humano havia parado de agir para pensar. E de tanto pensar, alienou-se de forma que um simples botão não resolveria o problema.
Pegava ele todos os dias o ônibus na tumultuada Salgado Filho. No ônibus com textura amarela e branca, ele lê sossegado seu livro. O ar condicionado não dava conta do calor de 43°. Eram um absurdo aquele calor naquele inverno gaúcho, diziam sua avó. Era esperado o pensamento, pois a menos de 40 anos atrás o frio era tema do inverno gaudério. Agora, só era tema de livros de história. E por acaso, fazia Chico seu quarto semestre de História na UFRGS. Mas após despertar este pensamento tão profundo sobre o desgaste do planeta, estava sem rumo de como prosseguir aceitando estes fatos.
Ele também dividia seus pensamentos com seu amigo, Patrick. Este um exímio desenhista futurista. Seu desenho principal representa uma refinaria no pólo petroquímico, em cores que dão a impressão de que de que a fábrica queima o céu já danificado. Mas ainda estava no anonimato. Seus desenhos seguiam apenas uma linha: hierarquia futurística. No caso do desenho ao lado, ele explicou ele coloca símbolos matemáticos em uma periódica, que recebeu um título: A emissão de gases poluentes LTDA, que polui desde 1974, 12 horas por dia, 5 dias por semana, 20 dias por mês, ano após ano, danificando seu precioso oxigênio, que você dá pouca importância e quando morrer sufocado sem ele, lembrará que foi nós, nós que lhe demos este privilégio. Visite hoje mesmo uma de nossas filiais, milhões de filiais...
Mesmo causando certo impacto, ninguém se interessava nos trabalhos de Patrick, que a cada dia ia se distanciando de seus dois dons: desenho e percepção.
Os dois eram vizinhos no bairro Vila Nova, a pelo menos 20 km do centro.
Enquanto isso, o noticiário só anunciava notícias insanas, do resultado da 3º Guerra Mundial, ou também conhecida como a “Maior de todas”. O motivo era dos mais fúteis: rivalidade econômica, uma vez que muitos países enriqueceram espantosamente, como China, Índia entre outros, inclusive o Brasil. Se na Guerra Fria, duas potencias quase destruíram o mundo, nesta provavelmente a Terra estava com os segundos contados. Era também época do derretimento acelerado das calotas polares. Se em 2010, as calotas ainda continuavam existindo, 2011 foi o ano do derretimento total. Isto porque em 2009 os lideres mundiais resolveram frear a emissão de gases de uma vez por todas, levando em conta apenas fábricas, dispensando as queimadas, desmatamento, desaparecimento de espécies de animais e poluição urbana. E esta consciência mínima que se teve, obrigou a natureza a responder de forma agressiva, mesmo não tendo muitas forças mais.
Cidades litorâneas sumiram, e causando muitas mortes, pois o derretimento surpreendeu qualquer cientista.
Chico não havia sido recrutado para a Guerra, era apenas corpo provisório. Para muitos ele tivera muita sorte.
Ele percebia muitas coisas agora. Mas não o bastante para confiar em uma pessoa. Esta pessoa o perseguia fielmente, porém nunca se identificara. Um detalhe é que Chico nunca se lembrava da fisionomia desta pessoa, mas quando a via, apenas naquele momento sabia quem era. Apenas associava aquela pessoa com suas mensagens, nas quais nunca conseguia absorver nada. O que ele entendia agora, de fato, é que esta pessoa lhe dizia certa frase: “O mundo está confinado; se não és ouvido nunca serás”. E agora que precisava conversar com aquela pessoa, não sabia onde encontra-la.
Alguma coisa ainda estava bem viva na cabeça dele. Ele tinha certeza que vira aquela pessoa próxima a um salão, no trajeto do ônibus até sua casa. Lá se reuniam algumas pessoas da quais nunca vira ou nunca tivera contato. Lembrava-se vagamente de uma empregada doméstica que trabalhava em sua casa há muitos anos e freqüentava aquele salão. Porém nada mais que isto.
Procurava informações antes de entrar naquele salão. Ouvira falar que naquele local apenas pessoas estranhas. Percebeu que todas as pessoas que opinaram sobre aquele local, todas elas alertaram a não se aproximar deles, pois eram doidos e nada mais.
Mesmo com todos os avisos de não entrar naquele salão, tão proibido pelas pessoas, tão proibido quanto qualquer lugar perigoso, Chico criou coragem e entrou lá, num dia que dissera para sua família que tinha de sair e não especificou o lugar aonde iria.
E lá entrando, percebeu que de nada estranho tinha aquele local, apenas pessoas sentadas e alguém palestrando, sobre algo que nunca tinha ouvido falar antes, uma história nova entrava pelo seu ouvido.
Lá fora, as guerras começavam..."



Neste momento, a luz se apaga dentro da caverna.

Nossos aventureiros ficaram perplexos. Apenas Popogenic’s achava que aquilo tudo fazia sentido. Mas como era um velho xarope da raça Idon’ttellnothing não abria o bico, por se tratar de assuntos que já passaram e não influenciariam em nada no futuro. Já Menino foi o mais exaltado:
- Não entendo nada o que se passou? Quem eram aquelas pessoas e que planeta era aquele, era tudo muito estranho...
- Também não entendi nada! – mentiu Popogenic’s.
Já Iceberg não prestara a mínima atenção.
Logo após o ocorrido, saíram eles da caverna, pois pressentiam que a tropas de Müllre estavam perseguindo-os. Acharam rapidamente a saída mesmo sem o uso dos iluminadores, pois parte daquela luz ainda não havia desaparecido.
Menino não parava de pensar naquela visão, do que se trataria e qual o fundamento daquilo que fora ouvido, pois todas as frases não saiam de sua cabeça.
Ao chegarem a um rochedo, no fim do tria, resolveram descansar um pouco pois, além de cansativa estes últimos momentos, foram em verdade mais que surpreendentes, ainda que algo daquilo serviria para alguma coisa, ou não precisariam ver.
Iceberg não conseguiu dormir e ficou vigiando, pois pressentia que as tropas estavam por vir, seja à noite ou mais escuro do que isto.


E não era mentira. Lá estavam 10 companhias comandadas pelo Sarg.dr. Eugênio Popogênio. Além de ex-governante e o yesterday mais antigo da espécie, foi nomeado para esta missão por João Júpiter, que estava sob proteção na 3º Companhia. Logo, as tropas atingiriam o centro de espaço bruto (como é chamado a América Central no futuro), e em muito pouco tempo a metade sul do planeta Carbono. Sem dúvida, bem próximos aos nossos aventureiros.
Mas como ninguém era de ferro (exceto Iceberg e seu cérebro), as tropas reservaram meio tria para folga. Nisso vieram algumas baixas, principalmente de soldados que integravam o batalhão 666. Neste batalhão, que causa a maior parte das despesas das tropas, integram-se pamonhas de 1º classe. Muitos por não ingerirem a expansão do protótipo Cinamomofthefuture². Mesmo assim, não existiam corpos provisórios. Todos os Yesterdays machos podiam entrar nesta batalha.
João Júpiter tinha um pensamento semelhante a antigos governantes. Sabia ele que havia um limite populacional, então era certo que haveria guerra, para dizimar uma centena de pessoas e assim não faltariam alimentos. Passaram-se alguns anos de uma revolução que matou cerca de 100.000 Yesterdays. Pensando neste novo aumento de população, resolveu juntar o útil ao agradável. Usou de um ódio secular sob os humanos para promulgar outra revolução. E desta, morreriam mais gente. As primeiras baixas já estavam ocorrendo, mas nunca que a população de Müllre iria desconfiar desta demagogia.
- Senhor, contabilizamos as baixas, 134 senhor! – disse um superintendente.
- Não foram tantas, então, responde frio o líder.
- O que disse senhor?
- Não, digo, lamento por isso, e diga ao resto sobre minhas lástimas.
Por quase um deslize, Júpiter entrega sua má conduta ao povo manipulado de Müllre.
Ao chegar o começo do inverno Carbonífero, proteções corporais poderiam ser retiradas, pois agora as temperaturas baixariam para, pelo menos, 70º.


Lá estavam, construções enormes, centenas de árvores e carros. E Billy sem muito entender do que se tratava aquilo tudo funcionando, continuou aproximando-se do desconhecido até agora. Mas como surgiria aquilo tudo em meio ao deserto da Patagônia, entre a Terra do Fogo e a extinta Antártida, onde há muitos anos, um lençol aquático cobria aquilo que era chamado de Oceano Atlântico. Uma forma de vida que estava no campo de visão do pobre coitado o impressionava como nunca. Acostumado a um mundo pacato, sem vida, sem graça, sem cores e principalmente sem nada de interessante, agora chegava a um estágio máximo de abstração. Seria tudo aquilo real? Ou era sua imaginação saltando fora de sua cabeça de miolos moles e projetando-se rente a seus olhos virgens de cores. Agora tudo ali era animado. Intrigava-o uma espécie muito esquisita aos seus olhos, talvez rara no mundo nórdico, mas abundante ali, naquele espaço diferente dos outros, onde o céu era, ainda que pareça devaneio puro, azul, e azul era nome estranho, pois dentre as cores que tinha conhecido era branco, cinza e preto. Desceu algumas ruas daquela cidade movimentada onde ninguém daquelas espécies eram inimigas, mas andavam e falavam juntas sem ódio nem rancor. Mas algo o impedia de entrar ali. Alguma coisa ou detalhe o impedia de ser visto pelas pessoas daquele lugar. Seu sonho havia acabado por um instante.
Continua cap. 3...

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SOBRE O AUTOR

Paulo Matheus Souza de Souza nasceu em 1989, na cidade Porto Alegre. É engenheiro civil e trabalha com pesquisa na área. Começou a escrever cedo, junto com os irmãos, primos e amigos. Juntos, eles fundaram uma “editora”, chamada Scott, onde o que mais faziam basicamente histórias em quadrinhos. Com o tempo, o autor passou a escrever histórias mais longas, algumas até hoje inacabadas. Em 2008 começou a escrever contos e crônicas neste blog pessoal.

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