Vannati - Parte II



II


Era meio dia. O movimento se fazia grande neste horário. Muitos aproveitam para pagar contas em bancos, lotéricas, etc. Principalmente no centro. Uma concentração quase maciça na Rua da Praia.

Era nesta rua que Fábio caminhava. Tinha o semblante sério. Há cerca de meia hora havia encontrado sua namorada, no chalé da praça XV. Não foi, de longe, o melhor encontro. Tanto é que seria o último. Um fato inusitado tinha tirado a tranqüilidade do casal.

Os dois já não se viam fazia muito. E em tão pouco tempo, não se veriam por um longo período.

Caminhava procurando aonde ir. Entrou em algumas lojas tentando esquecer o momento que lhe torturava. Mas esquecer não era fácil. Pois ela estava em todo lugar.

De repente, resolve entrar numa galeria, a do Rosário. Mas ela está lá também. Resolveu se matar. Mas não sabia como. Procurou a morte por algum tempo, mesmo sem ter coragem suficiente. Além das ilusões que sua namorada proporcionava, não havia mais ninguém na rua. Somente ela. E ele tinha consciência disto. Passou, por exemplo, por muitos conhecidos, mas nenhum deles ele reconheceu. Eram apenas vultos.

Até que o silêncio fora quebrado.

Ele ouviu vozes. Mas não sabia de onde vinham. Sua atenção ficou redobrada. Mesmo assim, seu foco não se desviava de sua tristeza.

Começou a subir a Borges. Queria tomar um ônibus, qualquer um, o primeiro o levava. Mas como não viu nenhum movimento, desceu novamente. Lembrou das paradas de ônibus do mercado público. Lembrou rápido que foi para lá que sua amada havia ido. Empacou diversas vezes, pensando em voltar. Mas já estava bastante decidido agora. Estava na verdade decidido de sua incerteza. Era voltar atrás.

Uma nuvem mais escura aproxima-se. Mesmo já tendo chovido o suficiente, uma enxurrada a mais não seria descartável. Não se podia confiar em nenhuma previsão. Mas nada que impeça a cidade de funcionar. A não ser por detalhes isolados.

Fábio encontrou sua bicicleta, estava próximo à estação. Quis ir até a redenção, local onde ele a conheceu. Seria ruim demais, por ter de relembrar muitas coisas, mas seria uma alternativa de encontrá-la, de fato.

Pedalou por ruas bastante movimentadas. Como, por exemplo, a Avenida João Pessoa, no horário de pico. Mas era como se não tivesse o maior ruído. Passou pela Faculdade de Engenharia como quem passa por uma rodovia deserta. Logo estava na redenção, seguiu até um dos lagos do parque. Não queria olhar para os lados. Queria naquele momento ver um casal, que a cerca de um ano, parecia inseparável. E estavam ali, mostrando para todos sua união. “Teria sido a inveja?”, pensou. Mas logo teve que se desligar. Na verdade, pôde agora se ligar no mundo.

Uma mulher apareceu muito assustada. Mas a princípio ficou feliz em vê-lo. Ele, no entanto, não a conhecia e não estava com vontade para conhecer ninguém.

- Onde está todo mundo? – perguntou ela.

- De quem está falando?

Ela não compreendeu. O homem parecia não estar ciente da situação. Talvez por não ter a resposta que ela procurava. Ou por ser louco.

- Não sabe o que aconteceu? Todos estão desaparecidos. Não encontrei ninguém, em nenhum lugar. Parece que algo dizimou a todos, talvez...

Ele não se surpreendeu muito. Mas quis saber algo:

- Você perdoaria seu namorado por um erro grave, se este o implorasse?

Ela sim, se surpreendeu. Esperava ouvir uma palavra de terror. Mas nada. Mais estranho que o desaparecimento de pessoas era o aparecimento de loucos!

- Por que me pergunta isso?

- Estou querendo saber, mesmo que você não seja quem eu queria que fosse.

- Venha comigo, me ajude a procurar alguém. “Este será seu primeiro tratamento”, pensou irônica.

Ele, mesmo pensando longe, seguiu a mulher.

A certo ponto, encontraram mais alguém, um homem, o qual a mulher confidenciou a situação de Fábio, que nem deu bola.

- Quem é você? – perguntou o homem.

- Fábio.

- Como não percebeu que todos desapareceram?

- Não quero incomodar a mais ninguém. Só quero me desculpar com alguém...

A mulher disse ao homem que só podia estar arrependido de uma grande besteira que fez. E, não esquecendo, ficara louco por isso.

- Vamos ajudá-lo – disse o homem.

A mulher concordou. Resolveu levá-lo para onde outros se encontravam. Os poucos na cidade. O vento soprava de um jeito diferente na Oswaldo Aranha. Não havia tráfego, não haviam pessoas, não havia vida. Apenas prédios, e tudo o que se pode imaginar em matéria de objetos inanimados. Porto Alegre parecia uma maquete, com algumas formigas em cima.

A mulher, que junto com o homem, ganhavam mais atenção de Fábio, logo apresentou os dois.

- Me chamo Sônia, e este é meu marido, Ricardo.

- Prazer – disse Fábio, parecendo estar agora acordando, mas para a realidade.

Os três seguiram indo em direção ao pronto-socorro. Talvez, pensou Fábio, precisasse de ajuda rapidamente. Ou, quem sabe, lá estaria uma solução para sua dor...

continua...

***

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SOBRE O AUTOR

Paulo Matheus Souza de Souza nasceu em 1989, na cidade Porto Alegre. É engenheiro civil e trabalha com pesquisa na área. Começou a escrever cedo, junto com os irmãos, primos e amigos. Juntos, eles fundaram uma “editora”, chamada Scott, onde o que mais faziam basicamente histórias em quadrinhos. Com o tempo, o autor passou a escrever histórias mais longas, algumas até hoje inacabadas. Em 2008 começou a escrever contos e crônicas neste blog pessoal.

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