Contos que Mal-Acabro - 6


A Revanche dos Vivos Mortos

Já ouviram falar em "lenda da lenda?" Esse é um caso bem raro de acontecer, mas acontece em Rocktown, já que ela, propriamente dita, é uma lenda. Então, nessa lenda, existia uma lenda que haveria uma greve de coveiros na cidade. E nessa greve, dado que os mortos não podiam se enterrar, teriam que esperar suas vezes. Dado que eles não queriam esperar, os mortos viriam
reclamar isso aos vivos (o episódio ficaria conhecido como "Incidente de Rocktwon"). Mas a maioria desses mortos estava indignada com os altos juros taxados pelo governo federal (a maioria dos mortos era aliado ao MST e CUT).

Bem, sendo mais direto, os mortos queriam matar os vivos. Na verdade, os mortos não tem noção do que fazem, em vista de que não percebem as consequencias em matar vivos, e que estes farão a mesma coisa com eles. Isso criaria uma cadeia alimentar, quer dizer, um círculo vicioso.
Não percebem também pelo estado carnicioso do cérebro.

Ou seria tudo isso mais um aplicativo do Note de Don Ruan?


Marie sente dores nos pés. Foi com eles que ela quebrou a porta do metrô. Mas aos poucos, a dor forte se torna uma leve coceira. A situação merecia mais atenção do que qualquer outro sentimento.

Menos para Lucy.

Ela parece atordoada com sua situação. E não era para menos, pois ao tratarem sua cidade como ilusão, ela também não deixaria de ser. Mas tudo ainda estava por ser exclarecido.

A Kombi parou. Alfred estava "apertado". Como quase não havia árvores, fez sua necessidade em um canto entre prédios. Quando todos dentro da Kombi observaram que o rastro líquido não se estenderia mais, perceberam que era hora de cair na estrada outra vez.
Na verdade, na avenida. Estavam se dirigindo ao prédio onde Bob havia vendido suas panquecas (sapatos). Mas Lucy não conseguia se concentrar.

Depois de muitas voltas, idas e vindas, blábláblá, eles acabaram encontrando o prédio procurado. É claro, isso após John, o acidentado escritor, dizer:

- Eu desisto!

Britney alertou-os antes de adentrarem o recinto:

- Pessoal, temos que bolar um plano! Vai que ai dentro eles nos prepararam uma armadilha? Eu vi isso num filme uma vez...

- Boa idéia, moça! - disse Alfred, que acabara de fechar o zíper...

- Mas que tipo de plano? Nem ao menos conhecemos direito esse prédio... - Lembrou Billy.

- Por que você tinha que lembrar isso! - disse Lucy.

Então todos começaram a pensar. Isso era, de fato, algo que estavam sem tempo pra fazer anteriormente... E ouve uma lâmpada em uma das cabecinhas:

- Tive uma idéia! Vamos comer algo antes? - disse Marie, estalando os dedos.

- Yep! - disse Bob, faminto.

Por mais surpreendente que possa parecer, era uma excelente idéia. Don Ruan estava de olho neles naquele instante. Mas ao ver que eles se afastaram, relaxou. Foi assistir TV. E não era para menos, estava passando o filme "Louca Obsessão!". Não podia perder por nada.

O restaurante ficava logo em frente ao prédio. Eles se abancaram nas mesas esperando o atendimento. Como de costume, as lâmpadas da cabeça estavam queimadas outra vez... Foi então que Alfred se levantou e foi até o balcão de atendimento:

- Onde está o gerente desta joça?

- Já vou, já vou! - disse um velho. Sim, era o mesmo secador de copos secos, o mesmo da cantora do hino nacional, o mesmo amigo de Don Ruan, e não tanto dos homens de sobretudo verde marca-texto. E se chamava Pepe, como dizia seu crachá.

- O que deseja? - disse, mas quase não dizendo. Esqueceu que estava falando com Alfred, alguém muito conhecido para ele.

- Tem certeza que já não nos vimos em algum lugar? - perguntou Alfred, coçando o que lhe restara de cabelos. Estava calvo mais pelo fato de esquecer as coisas.

- Não. Creio que não.

- Viu quando aqueles homens verdes nos atacaram?

- Não. Creio que não.

- Você é homem?

- Sim. Creio que sim.

- Então traga sete porções de milhos com cobertura de chocolate naquela mesa.

- Feitoria - respondeu, indo para a cozinha.

Alfred não estava lembrando quem era aquele velho. E o nome Pepe não ajudou muito. Logo voltou a mesa.

- Vamos discutir o plano? - perguntou Billy, que acabara de ativar o alarme da Kombi.

- Sim! Quem tem alguma idéia? - disse Marie.

- Eu! - respondeu Alfred - Acho que aquele velho que me atendeu sabe de algo... Temos que pressioná-lo até nos dizer algo.

Bob estava no mundo da Lua neste momento. Estava com saudades de seu orfanato e de seu emprego. Não sabia que uma simples entrega poderia gerar uma situação como aquela (apesar de que quando assinamos contratos, as vezes, não temos o hábito de ler tudo. E Don Ruan havia feito uma cláusula, que dizia: "Todo o funcionário desta empresa deve pelo menos uma vez, cair numa brincadeira de mal gosto de seu chefe". Bob era o único funcionário.).
Bob fez algo que ninguém percebeu, só depois quando o velho Pepe apareceu com as sete porções de milho com cobertura de chocolate. Ele apenas tirou a vela do mastro...

Depois que Pepe entregou os pratos, ele se virou e foi. Mas não esperava ser alvejado por Billy, o motorista de Kombi e jogador de bocha amador. Logo o velho estava amarrado e enquanto isso, Marie, como tinha visto em uma novela mexicana, acendia fósforos e apagava em Pepe por cada resposta errada.

- Diga-me, para quem trabalhas, Carlos Pepe?

- Não sei! Não quero...

- Diga! - gritava Billy. Mas aos poucos, depois de diversas marcas de fósforos apagados em sua pele, Pepe resolveu confessar.
E logo desembuchou o que Alfred mais queria ouvir:

- Eu conto de onde eu vim. Eu fui o menino que fez o filme "Ninguém segura esse bebê". Depois de dizer isso, olhou com medo para Alfred.

- Foi você! - disse o ator mordomo - Eu sempre quis esse papel, e em todos esses anos, o homem que roubou ele foi você! Eu sabia que te conhecia de algum lugar, vi você nos testes para o elenco!

- Sim, minha avó era amiga do dono da produtora, por isso eu ganhei! Mas eu só tinha 10 meses, não pode me condenar!

- Ah, não? Então o que me diz disso! - Alfred mostrou uma fotografia de um bebê recebendo uma mala de dinheiro. O mesmo bebê fumava um charuto cubano...

- Glup! - disse Pepe - Não vão escapar dessa!

Marie estava muito atenta a tudo. Apesar de ser atriz, também gostava de situações novelísticas na vida real. John, que não era bobo nem nada, estava anotando tudo. Iria fazer fortuna com tudo aquilo.

- Ah, é? E por que não iremos escapar? - perguntou Lucy.

Da porta frontal, da cozinha e dos banheiros surgem os três homens com o sobretudo verde marca-texto; todos eles fortemente armados. Com RPG's.

"Estão mais fritos que a gente" - pensou um dos hamburguers que queimava na chapa.

Os sete foram caminhando em fila indiana em direção ao prédio que queriam invadir. Foram levados até Don Ruan, no 13º andar, sala 666. Um dos homens, o de chapéu de cowboy, disse:

- Senhor, estamos com os seus sete convidados aqui, podemos entrar?

- Não! - gritou Don Ruan - Não está vendo que está na parte mais legal do filme??? E realmente estava numa parte legal, quando Paul põe fogo nos papéis (pedindo pra morrer...).

Eles ficaram sentados no corredor, sob a mira das RPG's. Talvez fosse o fim deles. Ou não. Como eu não sou bobo nem nada, vou deixar a continuação para o próximo capítulo...

***


Oi! Eu sou o Goku! Não acredito, Don Ruan parece que vai vencer essa parada! Tudo está levando a crer que nossos amigos estão perdidos! Mas esperem, um vírus ataca o Note do vilão, pois ele acabou não atualizando o AVG! E isso pode comprometer até a existência de Rocktown!

Não perca! O próximo capítulo de Contos que Mal-Acabro será:

O Computador Mal Atualizado


PMSS

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SOBRE O AUTOR

Paulo Matheus Souza de Souza nasceu em 1989, na cidade Porto Alegre. É engenheiro civil e trabalha com pesquisa na área. Começou a escrever cedo, junto com os irmãos, primos e amigos. Juntos, eles fundaram uma “editora”, chamada Scott, onde o que mais faziam basicamente histórias em quadrinhos. Com o tempo, o autor passou a escrever histórias mais longas, algumas até hoje inacabadas. Em 2008 começou a escrever contos e crônicas neste blog pessoal.

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