Abril desse ano


Faz tempo que não passo por aqui. Em memória disso, na teoria, meu texto tem que ser excelente. Mas como ainda não o escrevi, prevejo que será um fracasso. Temo que isso espante meu fiel amigo leitor Gaspar. Mas o que posso fazer?


O mundo tem clamado por uma voz. O problema é que eu também tenho clamado por ela. A diferença é que o mundo sempre clamou por ela, e ela respondeu. E depois que essa voz ouviu o clamor, ela respondeu. E o mundo voltou a clamar, a se perder. Mas não sou o mundo. Apenas faço parte dele, mas dele não tiro nada que me acrescente.


A realidade é que estive aqui nesse tempo todo pensando. Na verdade, querendo no fundo da alma querendo ouvir a voz do que nos ouve, de quem sempre nos ouviu. Eu queria que essa voz morasse sempre em meu peito. Pois ela me liberta e abre os caminhos fechados pelo mundo, que de fato, não gosta dessa voz, mas por incrível que pareça, quer ouvi-la.

O mundo nos complica. Então, prefiro fazer meu caminho aquém. Tenho em mente o que é ser diferente. Ser tachado de ouvinte, de um ser com boa audição. Talvez seja isso que eu precise: ouvir os outros. Ouvir o que eles tem a dizer. Sei que posso ter escutado o suficiente, só que nunca nada que nos faça rir é demasiado. Lembro de vozes do mundo dizendo que eu não era bom; lembro dessas vozes não sendo bons.


A questão é: qual a voz que me pertence? Quando nascemos, ouvimos as duas vozes mais clássicas de uma família. Talvez, num emparelhamento, estaremos falando a média dessas duas vozes. Essa é a nossa voz? Pra mim foi mais ou menos aos 13 anos. Minha voz ficou mais rouca, mudou. Normal. Enfim, a voz passa por diversas transformações, inclusive quando adoecemos. Essas vozes, portanto, são nossas? De onde vem nossa voz? Das cordas? Da boca? Da nossa língua?


Melhor: o que representa a nossa voz? Quando dizemos algo, apesar de depender da situação, ela nos revela. A nossa voz diz muito de quem somos. Então, nossa verdadeira voz não está na qualidade ou aparência do tom. Mas na essência e dicernimento do que dizemos.


Apesar de tudo isso, quando descobrirmos que a voz que nasce no coração é suficiente para dizer quem somos, ainda assim precisariamos de uma voz que nos guiasse. Uma voz que não soa literalmente para os homens, mas que soa realmente para aqueles que a querem ouvir.


Ela soa pelos vales, no oceano, quando o dia nasce, ou quando o sol desaparece; talvez esteja nos animais, ou então nas plantas que nos visitam na primavera. Está certamente em coisas simples, pois a voz que vemos no disparo de uma arma não nos diz nada.


O som de uma canção sublime, o canto de uma ave ao nascer dos filhotes. O vento que bate entre as árvores, e a chuva que rega as mesmas. No verde que permeia os campos, na areia que nos separa do mar. Ouço, em tudo isso, uma voz. Ela diz o que é certo ou errado, o que é integro e o que desvirtua. Ela soa em todos os cantos, onde a quer que estejamos.


Ela está onde a gente quiser que esteja.


Sim, era essa voz que eu queria ouvir durante esse tempo. Estou certo que já ouvi muitas e muitas vezes e confesso: quando a ouço, dificilmente quero que pare. Apesar de sempre errar em tentar esquecê-la, sei que ela já está dentro de mim. E meu clamor não durará muito, pois a voz vem cessá-lo, sem demora.


Disse Jesus: “As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu conheço-as, e elas me seguem” (João 10:27).

Paulo Matheus

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SOBRE O AUTOR

Paulo Matheus Souza de Souza nasceu em 1989, na cidade Porto Alegre. É engenheiro civil e trabalha com pesquisa na área. Começou a escrever cedo, junto com os irmãos, primos e amigos. Juntos, eles fundaram uma “editora”, chamada Scott, onde o que mais faziam basicamente histórias em quadrinhos. Com o tempo, o autor passou a escrever histórias mais longas, algumas até hoje inacabadas. Em 2008 começou a escrever contos e crônicas neste blog pessoal.

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