E lá vamos nós...

Pra compensar minha ausência, lá vai um histórinhazinha-inha.


"Eram três. Três horas. Da madrugada. Todos estavam dormindo. Mas ao contrário. Era festa. Festa do sono. Mas ninguém estava dormindo. Pois era festa.

Dominic, um garoto sérvio, brincava com tampinhas de garrafa em seu quarto. Seu mãe e sua pai, quer dizer, seus pais, foram a festa. Na sala, uma babá. No quarto, com Dominic, ninguém. Resultado: não havia mais ninguém em casa, a não ser o pequeno de 8 anos.

Ainda mais que a babá estava dormindo. Ela não era sérvia. Era búlgara. E ruiva. E chata. E dorminhoca.

Dominic pegou suas tampinhas e as guardou dentro de uma meia encardida. Estava as guardando para a escola. Altos planos. Mas seu foco agora era a festa. Do sono. Ele sabia que seus pais imaginavam a hibernação do garoto. Mas Dominic não se chamaria Dominic se não quisesse fugir dali. Se chamaria Bobonic. Ou Babaconic.

Sua babá estava em altos roncos na sala. Os ratos estavam com medo. Quando o pai de Dominic não estava em casa, na madrugada, a festa era deles. Mas a babá virou um caso a parte. Só seria só naquela eventualidade mesmo, sendo que o pequeno polegar passaria ileso por detrás do sofá. Abriria a porta e sem mais delongas, estaria na festa.

Estaria, se não fosse Edgar Van Picnic, um velho ex-combatente da 1º Guerra. Ele estava sempre de olho no criminoso mirim em potencial.

- Onde vai, rapaizinho?

- Vou procurar o Felix! - Cão, mas como nome de gato.

O velho fez uma breve análise sobre o mentiroso: estava de pijama listrado e com cara de quem nem dormira ainda. Como o velho tinha suas manhas de combatente, e uma demência jamais vista na face dos traumas de guerra, soltou as letras:

- Ah tah.

Dominic saiu com seu livre arbítrio mal desenvolvido porta afora.

Lá pelas tantas, ele ouviu uma voz na rua úmida, a caminho da festa. Era um ladrão. Mas daqueles que nunca diriam a frase cabalística dos criminosos a um garoto de 10 anos no máximo:

- Ei, garoto, onde está indo?

- Para a festa. Quer vir junto?

A barriga do 157 fez que sim. Mas o mal-barbeado hesitou.

- De onde um menino de 6 anos, com pijama listrado e cara de pirulito me convida pra ir numa festa regada a Rum?

- Oras, aqui mesmo.

O ladrão não era bobo, realmente.

- Pois vamos, guri!

Lá estava o menino, agora acompanhado de um tutor imundo indo para sua festa. Dominic não sabia do perigo que estava correndo. Mas, quando falamos em Dominic da Sérvia, é melhor pensarmos que o perigo só corre mesmo é do próprio Dominic. Era mais fácil a babá acordar do que Dominic sentir medo.

Pois bem. A festa estava animada de mais, e a mão do ladrão também. Mal sabia o vadio que em lugares onde pessoas se alteram poderia ser mais fácil de trabalhar. E a essas alturas, Dominic estava fazendo algo longínquo a do ladrão. O seu plano, bem dizendo. Dominic trouxera em seu bolso uma dinamite. Ele tinha arranjado no armário do velho Edgar, quando o menino quis usar o banheiro. O velho até o viu mechendo no armário, mas convém apenas resumir que se tratava de problemas papelísticos banherísticos. E o velho? Nem ai.

Bem, a dinamite de Dominic estava posicionada. Onde? No grande e fabuloso bolo da festa. Ainda não tinha sido cortado. Foi quando, neste momento, apesar de nos outros não aparecerem ninguém, um palhaço bêbado (reparem que não há crianças na festa, exceto o penetra mirim) se aproxima do bolo e pergunta:

- Garoto, o que está fazendo?

- Quero um pedaço do bolo!

- Apesar de eu estar meio tomado pelo rum, creio ter visto você colocando um pirulito no bolo - disse o palhaço, que olhou para a cara de pirulito de Dominic e misturou um pouco seu ponto.

- É que eu não quero que nenhuma criança veja!

- Menino esperto, hein?

O palhaço sai feliz por ter ajudado o garoto. Mas depois de 10 passadas a frente, ele percebe seu erro. As pessoas a sua frente o admiram. Também, estão bêbadas... Apesar disso, algo diz que o palhaço viu a dinamite, e o garoto podia querer fazer algum tipo de atentado. Mirim, é claro.

Ele se virou, surpreso, e disse:

- Eu fui lá pegar uns salgadinhos e voltei sem nada... hic!

Após o 'hic', a dinamite explode. Apenas depois de algo explodir um bolo é que sabemos que a doceira caprichou no merengue e descontou no recheio. Mas isso era o de menos, pois a dinamite destruira o bolo, a mesa, o rum, e a noite.

Em se tratando de preocupação, cerca de metade dos convidados aplaudiram após o ocuorrido, pensando que a explosão era parte da festa (destruir tudo era parte da festa?). Outra percentagem caiu pois outra percentagem, a de álcool, estava demasiada. Outros poucos ficaram assustados e rumaram suas casas, apesar de estarem completamente desnorteados. Alguns desses pensaram estar em Paris.

Antes que todos os raciocínios ilógicos provenientes de festeiros da festa do sono sentissem que era hora de dar no pé, Dominici já praticamente estava em casa. Teria apenas que burlar, mais uma vez, o velho Edgar.

- Menino, que horas são essas na rua e de onde tirou esse sorriso de pirulito?

- São 3hs, Sr. Edgar e hoje teve festa lá no parque.

O velho pouco acreditou, sabia da verdade.

- Que bom, guri. Tenha uma boa noite.

Dominic entrou e deixou cair um vaso com barro, em cima do gato Felix. Ele gritou e correu. O barulho foi tão grande que fez a babá se mecher no sofá. Dominic fechou a porta e retirou-se na cama.

No dia seguinte, os pais chegaram 8hs em casa. Estavam acabados. Na verdade tinham ido dormir 4hs, só que na rua. Na verdade, não muito longe. O próprio Felix tinha ido os acordar.

A babá ainda dormia, mas acordou quando sentiu cheiro de pão, que o pai havia trazido. Tão logo, começou seu relatório:

- Sr. Petkovic, o garoto foi dormir as 9hs da noite, e eu as 11hs. Nada aconteceu durante a noite, visitei o menino durante toda a noite. Essa sujeira foi culpa do gato. Se quiserem perguntar algo, façam ao Sr. Edgar, vizinho de prédio.

- Não será necessário, minha filha, tome aqui seu pagamento - setenciou a mãe.
O pai sentou na mesa enquanto a mãe fazia o café. No jornal, duas manchetes estampavam horrosamente a capa:

"Festa do Sono é arruinada por dinamite no bolo. A investigação fará sua apreciação nesta tarde. Mas, provavelmente, seria ato de algum mamado da festa".

Talvez a loucura do acontecido fosse o de menos. Ambos sabiam que combinar o horário com beber demais daria em porcaria. Os detalhes da notícia ainda apontariam um palhaço de 46 anos como principal suspeito.

Na outra notícia, dizia: "Ladrão é preso após roubar todas as pessoas na festa, beber muito Rum e dormir com o saco dos pertences a 10 metros do local".

Depois desse ocorrido, muitos servos tem admitido que a frase 'a noite é uma criança' surgiu ali. Mas, isso são apenas boatos. Mas uma coisa estaremos sempre certos: Nunca colocaremos o nome de nossos filhos de Dominic...

¨¨¨¨
- Querida, onde está meu isqueiro?

- Não seja bobo, querido, o ladrão deve ter roubado!





Paulo Matheus

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SOBRE O AUTOR

Paulo Matheus Souza de Souza nasceu em 1989, na cidade Porto Alegre. É engenheiro civil e trabalha com pesquisa na área. Começou a escrever cedo, junto com os irmãos, primos e amigos. Juntos, eles fundaram uma “editora”, chamada Scott, onde o que mais faziam basicamente histórias em quadrinhos. Com o tempo, o autor passou a escrever histórias mais longas, algumas até hoje inacabadas. Em 2008 começou a escrever contos e crônicas neste blog pessoal.

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