Vannati - Parte I



I

As chuvas já haviam passado. Um clima úmido se instaurava no centro de Porto Alegre. Em calçadas feitas de basalto polido, um risco iminente de deslizamento. Mesmo assim, nem tudo podia ser causado por condições do ambiente. Pessoas também falham.
Numa escadaria de acesso ao trensurb, Anna percorre mais uma vez o mesmo trajeto. Mas não esperava por um pequeno detalhe. Em si. Um pouco antes, já havia tirado uma blusa, pois se sentia mais quente. No meio da escadaria, uma crise de falta de ar a atingira. Seus olhos queriam saltar, não conseguira mais esconder, o rosto pálido e suador constante. Suas pernas desfaleceram.
Antes que caísse, uma mulher a acudira.
- O que houve? – perguntou esta.
Vendo agora o rosto de Anna, esta mulher, que se chamava Olívia, sabia o que se passava. Fez outra pergunta, mas sem resposta. Anna estava passando mal, sem poder responder a nada.
Procedeu-se ao esperado.
- Alguém ajuda aqui!
Um jovem aproximou-se. De fato, não havia tanto movimento naquela hora. Ele estava vindo com uma mochila e um guarda-chuva. Quase não parou.
- Pode chamar uma ambulância? – perguntou Olívia.
- O que houve? – questionou o jovem, que se chamava Vinicius.
- Ela começou a passar mal. Está com falta de ar!
- Bah! Eu vou fazer uma ligação ali embaixo na estação.
Um tanto assustado com a situação, o rapaz começa a descer. Mas não vai muito longe. Na contramão, um homem de terno e gravata sobe rapidamente, e acaba trombando com Vinicius. O homem deixa cair sua pasta, que escorrega escada a baixo. Vinicius cai na escada.
- Olha por onde anda guri!
- Senhor, você tem um celular?!
Ele não o corresponde. Volta pela escada em busca de sua maleta. Quando volta, é interrompido por Vinicius.
- Desculpe, senhor, você não tem um celular?
- Tenho, mas estou com pressa!
Vendo tudo, Olívia chama o homem social, que se chama Ricardo.
- Senhor, desculpe, mas tem que nos ajudar!
Ele quase ignorando, acaba voltando atrás.
- O que houve?
- Esta mulher estava com falta de ar e desmaiou. Não sei o que houve com ela, mas a evitei cair. Ajude-nos chamando uma ambulância.
- Estou meio atrasado... mas deixa que eu dou um jeito.
Ele pegou a mulher nos braços, e chamou Olívia para acompanhá-lo. Vendo Vinicius, o chamou.
- Venha também.
Todos se encaminharam para a Avenida Júlio Castilhos. Em pouco tempo, um Vectra preto estacionou rente ao grupo. A porta da frente abriu, uma mulher apareceu, dizendo:
- O que houve Ricardo?
- Vamos deixar esta moça no hospital.
A mulher abriu a porta traseira para o homem colocar a debilitada. Logo, estavam todos a caminho do hospital.
- Acho que vou deixar você também por lá! – disse a mulher para Ricardo – Deve estar passando mal para ajudar os outros!
- Mas vai ser coisa rápida. Estou muito atrasado para a reunião, não posso mais me atrasar.
Anna começou a respirar rapidamente, com muita falta de ar. Agora estava vermelha. Mas com os olhos fechados. Continuava a suar muito.
Olívia explicou para a mulher que dirigia, que se chamava Sônia, o que havia ocorrido. Ninguém, ainda, desconfiava do que podia ser.
Ela seguiu pelas avenidas principais, até chegar à Oswaldo Aranha, rua do Pronto Socorro. Sônia estava literalmente voando. Pela situação dupla, a doente e a pressa do marido.
Ao chegarem, Ricardo carregou a enferma para uma cama com rodas, sob a autorização de um enfermeiro. Vinicius e Olívia acompanharam Ricardo, enquanto Sônia encontrava uma vaga.
- Diga àquela mulher que tenho que ir. – disse Ricardo para Vinicius, se referindo a Olívia, que fazia uma ficha de entrada.
Ao virar para sair, deu de cara com a esposa.
- O que está fazendo aqui? – perguntou ele.
- Vamos acompanhar a moça! Afinal, você quis ajudar, ainda que me pareça estranho...
- Mas a reunião...
- Têm muitas ainda este ano. Se precisarem de você lá certamente prorrogarão para amanhã.
Ele quase jogou a mala pela porta. Alguns feridos o observaram com desprezo. Calou-se por um tempo.
Um encarregado pediu para que acompanhassem a mulher enferma. Todos o seguiram.
No quarto pavimento, em uma sala com apenas uma cama, um enfermeiro colocou a mulher sobre a cama.
- Já volto com um medicamento.
- Mas... – tentou interromper Olívia. Achou muito estranho aquele procedimento. Mas esperou.
Por um tempo ninguém disse nada. Vinicius se sentou numa cadeira. Olívia segurou a mão da enferma, enquanto o casal estava à meia distancia da cama.
Passou-se dez minutos. Vinte. As reclamações foram evoluindo com o tempo, até que Ricardo tomou a liberdade de sair para procurar um médico. Anna continuava com a falta de ar. Ricardo abriu a porta, mas não vira ninguém no corredor. Saiu em busca de ajuda, mas não encontrara ninguém. Em todo o pavimento. Voltou intrigado à sala.
- Não há ninguém neste andar.
- Como assim? – perguntou Olívia.
Saíram Olívia e Sônia para procurar ajuda. Ricardo ficara espantado com o que vira. Ou com o que não vira.
- O que é mais estranho é que haviam pessoas sentadas em bancos no corredor. Não havia ninguém lá...
Vinicius foi até a janela fechada. Fez um esforço para abrir, mas conseguiu. O vão era grande, mas era ainda maior o espanto do rapaz. Olhou para baixo. Havia carros espalhados pela Oswaldo Aranha e Venâncio Aires. Mas não havia um sinal de pessoas. Ninguém mesmo.
Logo as duas mulheres voltaram espantadas tanto pela expressão quanto pela notícia, que não era animadora:
- Não há ninguém neste prédio!


continua...

***
Paulo Matheus de Souza

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SOBRE O AUTOR

Paulo Matheus Souza de Souza nasceu em 1989, na cidade Porto Alegre. É engenheiro civil e trabalha com pesquisa na área. Começou a escrever cedo, junto com os irmãos, primos e amigos. Juntos, eles fundaram uma “editora”, chamada Scott, onde o que mais faziam basicamente histórias em quadrinhos. Com o tempo, o autor passou a escrever histórias mais longas, algumas até hoje inacabadas. Em 2008 começou a escrever contos e crônicas neste blog pessoal.

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