Uns homens tristes




Um homem triste vagava pela estrada à noite, sem ter aonde ir, sem conhecer a estrada, sem muito o que fazer. Um trem passava ao seu lado, com pouca pressa, querendo dizer que o tempo estava querendo parar. Uma chuva se aproxima, para que o viajante que carrega só as roupas do corpo, fique em estado de nervos. Uma coruja observa tudo, e, sem querer interferir, apenas faz seu papel sem mais a oferecer. Na contramão, um carro antigo anda na mais intensa calma... Os faróis fazem o homem andarilho abrir os olhos. Mas foi apenas uma forma de se manter acordado; o carro seguiu e o homem também. A chuva cai, e lágrimas artificiais brotam no rosto já sonolento do andarilho. Seus pés, em instantes, estão encharcados de água e as poças nem são mais desviadas. Suas roupas, de uma forma tão pouco desejada, são lavadas na calada da noite, e mais um trem passa para admirar a madrugada de chuva. À noite onde tantos dormem nos vagões e um ser lá fora, além de admirar a chuva, prova dessa beleza, apesar de uma tosse repentina o tirar essa atenção maravilhada. Isso, pois sua tristeza não poderia ser maior. Um banho de chuva era uma alegria interior pouco demonstrada, mas uma alegria. E caminhar de olhos fechados o ajudava a não ver que a tristeza que o assolava era nada mais do que um simples tempo. Quando tudo é bom, o tempo é curto, ao contrário do contrário, já concluira Einstein. Mas o andarilho era iletrado, e tão pouco queria saber se o tempo era relativo; para ele, o tempo era perda de tempo.

Mais do que passos a menos, e menos era a pretensão de chegar a algum lugar, mais importante mesmo era continuar vagando. Apesar de toda a chuva que caía, apesar da estrada e a vegetação ao seu redor, tudo aquilo era um deserto de mesmice, de solidão e de pouca esperança de se acabar. Dava para imaginar o que um homem destes pensava, o que certamente não era algo definido... Ou era sobre seu destino ou o destino do que engolira na noite anterior. "Seria melhor caminhar pra esquecer ou para chegar a algum lugar?". O que ele não conseguia esquecer era que ele era ele. E era isso que (ele) queria esquecer. Mas como esquecer o que ele aprendeu? Como ser o que não é, se mal sabe ser o que realmente quis ser...

Se fôssemos mergulhar em seus pensamentos, não chegaríamos ao seu destino. Que, olhando fixo do trem, pouco podia se saber para onde seria. Mas sempre há uma pedra no caminho. Quando se pensa que estamos certos ao fechar os olhos e caminhar sem ter um Norte, algo nos faz tropeçar, cair, se machucar, e se não bastar, haverá pedras cada vez maiores e tombos cada vez piores. Até chegarmos a conclusão que uma possível solução não mora numa estrada escura e tão pouco pode ser descoberto vagando por ai. E o mais interessante é que quem está no trem rumo a algum lugar, vê não só um homem triste, mas todos os que estão neste estado. E para aquele homem andarilho, é como se só ele passasse por isso naquele lugar, naquele seu mundo grande e pequeno.

A pergunta que não quer calar: para onde vai o trem e para onde vai o homem?
Tudo depende do que o homem quer, pois o trem sempre irá numa direção. E o dia que em que homem descobrir que o trem era o meio de transporte seguro e rápido, e que sempre esteve ao seu lado, poderá ser o ultimo horário disponível. E, no fim das contas, conhecerá o que procurava vagando pela estrada: a verdadeira tristeza.




PMSS

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SOBRE O AUTOR

Paulo Matheus Souza de Souza nasceu em 1989, na cidade Porto Alegre. É engenheiro civil e trabalha com pesquisa na área. Começou a escrever cedo, junto com os irmãos, primos e amigos. Juntos, eles fundaram uma “editora”, chamada Scott, onde o que mais faziam basicamente histórias em quadrinhos. Com o tempo, o autor passou a escrever histórias mais longas, algumas até hoje inacabadas. Em 2008 começou a escrever contos e crônicas neste blog pessoal.

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