Contos que Mal-Acabro - 2


Cantigas Macabras

Existia uma cidade no interior de algum grande centro urbano, que apesar de estar a beira da estrada, durante a noite era impossível de se atingir. Sim, era Rockfeller Ville, conhecida apenas por Rocktown. Durante o dia as casas eram simples como qualquer interior, mas a noite, prédios enormes e um transito frenético. Poucos relataram isso. Mas em consenso, era assim.

John, um garoto comum de 45 anos, passeava por ela. Seu carro havia capotado e não havia nenhuma enfermeira psicótica para lhe salvar e levar para casa (ele também era escritor...). Então caminhou até a cidade. Durante o pôr-do-sol é que pode notar a transformação: de reles barracos interioranos para tremendos arranha-céus imponentes e a movimentação esperada de uma grande metrópole. Ele, como gostava de viajar (em suas histórias e em suas loucuras), achou incrível.

John se assustou ao olhar para o lado, não por isso. Ao ver algumas crianças reunidas numa ciranda, cantando algumas músicas pra lá de estranhas. Ele olhou para o relógio e notou a alta hora que já era, mas não quis interromper as cantigas que assustavam até o próprio Roberto Marinho:

Popeye foi à feira
Não sabia o que comprar

Comprou uma cadeira
Pra Olívia de sentar
A Olívia se sentou

A cadeira se quebrou

Coitada da Olívia

Ficou paraplégica...


Um elefante incomoda muita gente
Um caçador incomoda o elefante

Um ambientalista incomoda o caçador

Um político incomoda o ambientalista

Um eleitor incomoda um político

E a urna sempre incomoda o eleitor...


O cravo brigou com a rosa
O cravo saiu ferido e a rosa desapareceu
A rosa parte na polícia deu
E a polícia matou os dois por engano...


Depois disso, John, que estava mais branco que Michael Jackson saindo de uma ambulância andando, percebeu os primeiros raios de sol. Quando deu por si, estava numa cidade tão pequena quanto uma cidade tão pequena... John procurou alguém, um ser vivo, mas era muito difícil.

Entrou num bar, muito escuro e fedorento, que não tinha nome nem clientes. Tocou a campainha, e apareceu um velho. Por incrível que possa parecer, algo estranho aparece, não era uma alucinação, John estava vendo mesmo um coveiro atrás do balcão. E parecia ter saído debaixo da terra, pois estava todo sujo e com cara de quem brincava na lama. Ele sorria com a pá na mão, e parecia estar sóbrio, apesar das circunstâncias...

- Senhor, estou perdido... Sofri um acidente aqui perto e não encontrei o hospital... Devo estar tendo alucinações! - disse John, não acreditando ainda em seu paradeiro.

- Não, meu caro jovem, você não está delirando, mas posso te levar até o hospital.

- Seria amável de sua parte...

- Venha, pequeno garoto! - disse o coveiro, soltando uma risada daquelas maléficas e logo se engasgando com a terra que encobria a face maracujenta do velho...

John foi conduzido a uma enfermaria, mas não havia nem doentes tão pouco médicos e enfermeiros. E, por uma espécie de sorte, nenhuma enfermeira psicopata.

- Espere ai que a ajuda virá, jovem garoto! - disse o coveiro - Agora vou voltar para meu trabalho incessante, até breve...

Esse 'até breve' causou um sentimento conhecido por 'cagaço' e se pode comparar a um medo instantâneo íngrime. John estava todo cagado. Ele levantou-se e foi conferir o que havia no recinto, que parecia mais deserto que o senado em dia de trabalho.

Chegando a um quarto ele se deparou com Britney, uma mocinha de 36 anos, que estava deitada no chão, mesmo tendo vagas em todas as camas. Ela acordou no mesmo momento que John deixou cair uma aquelas bandejas de hospital (nesse caso, uma para amparar vômitos...). Britney deu um grito, mas não havia ninguém mesmo dentro daquela espelunca para ouvir.

- Onde estão todos? - perguntou John.

- Todos quem? Estou aqui a cinco dias e não encontrei esses 'todos' que você fala...

- Como assim? Agora a pouco me encontrei com um coveiro cheio de terra... parecia que haviam enterrado ele ao invés do defunto.

- O que? Do que está falando? A única pessoa que encontrei aqui foi uma menina pequena, que por um acaso... também estava suja de terra pelo corpo, mas ela não era coveira!

- Tem razão... o velho que me trouxe até aqui não parecia com um coveiro... acho que vi numa fotografia no bar... ele era o dono do boteco! Mas por que então estão todos assim?

- Não fale mais em todos! Não há todos aqui! Apenas ninguém.

John ajudou Britney a se levantar. Mas antes, Britney percebeu os ferimentos em John e fez uns curativos. Não ficaram lá as mil maravilhas, mas estancou o ferimento.

Os dois foram até a delegacia da cidade. Havia se passado apenas 3 horas no relógio de John desde o acidente. Mas a o sol já estava se pondo outra vez. Antes dos prédios aparecerem outra vez na noite, dois homens com sobretudo verde marca-texto (como a camisa do palmeiras há um tempo atrás...) atacam os dois e os levam para um carro que parece ter saído de um ferro velho, mas andava. Eles são sedados e logo em seguida, jogados na rua.

Quando Britney acorda, se dá conta que a noite é mais escura, pois prédios enormes tapam a lua, e nenhuma luz alternativa os dão claridade. Estavam sós, e agora tinham que se virar em Rocktown. A mocinha quase vomitou, pois John dormia com um rato abraçado.

- Bilu, bilu, bilu! Cuti, cuti, cuti!

A noite durou muito mais do que três horas. O relógio era inútil. E a Olívia continuava paraplégica.


PMSS

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SOBRE O AUTOR

Paulo Matheus Souza de Souza nasceu em 1989, na cidade Porto Alegre. É engenheiro civil e trabalha com pesquisa na área. Começou a escrever cedo, junto com os irmãos, primos e amigos. Juntos, eles fundaram uma “editora”, chamada Scott, onde o que mais faziam basicamente histórias em quadrinhos. Com o tempo, o autor passou a escrever histórias mais longas, algumas até hoje inacabadas. Em 2008 começou a escrever contos e crônicas neste blog pessoal.

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